O bom “Lado B” (por Mateus Cristovão)
Fadada a clichês e aos diversos artistas de muita produção e pouco talento, a música nacional descobre na cena independente o surgimento de excelentes novidades. Em Santos, litoral de São Paulo, talentos como o jovem Luccas Trevisani e a banda Koala Joe mostram que é possível fazer música de qualidade e obter reconhecimento do público sem o apoio das grandes gravadoras.
Em tempos de “vacas magras” no circuito comercial fonográfico brasileiro, não é exagero afirmar que, para quem quer conhecer novos sons, mais vale explorar os muitos porões e garagens à procura de talentos anônimos a endossar os novos “sucessos pré-fabricados”, que alimentam o agonizante mercado das gravadoras. Mercado este que está cada vez mais cauteloso ao arriscar em grandes investimentos, e se fecha de forma, quase indissolúvel, aos muitos que ainda, corajosamente, batem em suas portas no sonho de divulgar o próprio trabalho.
Em razão desta tendência, cresce o número de artistas anônimos e de expressivo re-nome, que investem no mercado paralelo da indústria cultural e se lançam de forma independente ao grande público. Nomes como o do cantor Lobão, que descobrem na iniciativa privada, uma maneira de buscar o seu lugar ao sol.
Tida como um verdadeiro celeiro deste talentos anônimos, a Baixada Santista é, sem dúvidas, um dos principais pólos do circuito alternativo. Em um passado não muito distante, revelou ao Brasil e ao mundo o desbocado e empolgante rock da banda Charlie Brown Jr. Pouco depois, levou ao Rock In Rio o promissor som da banda Cajamanga e, nos dois últimos anos, mostrou o “bom lado B” do seu universo pop/rock, black soul e hip hop, através das bandas Koala Joe, Conexão Baixada e do cantor e compositor Luccas Trevisani.
Este último, ainda com seus poucos 22 anos, já atingiu resultados de gente grande e surpreende por seus números e pela qualidade de suas letras e melodias. Em pouco mais de dois anos buscando reconhecimento por trás das cortinas, Luccas Trevisani vendeu mais de 25.000 cópias, entre coletâneas, parcerias e seu primeiro disco solo, Estação.
Um disco que embora tenha sido pouco divulgado em comparação à mídia explorada pelas majors, agradou ao público e à crítica regional pela sua versatilidade e, principalmente, por revelar o surgimento de um grande letrista que, sem exageros, pode ser encarado como um novo poeta do rock nacional.
Após atingir a marca de quatro mil cópias vendidas de Estação, Luccas Trevisani parte agora para o lançamento de seu segundo disco com a certeza do dever cumprido. Algo que pode ser encarado como uma decolagem que possibilitou um vôo maior do que suas próprias limitações, mostrando o abrangente horizonte que Luccas certamente ainda tem a explorar pela frente.
“Os números de Estação me surpreenderam em razão das limitações naturais a divulgação de um trabalho independente. Porém, sabendo do potencial do meu trabalho e, propriamente do disco, sei que com o apoio da grande mídia o sucesso poderia ter sido ainda maior”, revela o músico.
Além do cd Estação, composto com 12 faixas autorias, o musico lançou ainda um vídeo-clipe independente, que chegou a ser exibido pela MTV Brasil, e por emissoras do litoral paulista. Um investimento que requer recursos e planejamento, visto que o custo de gravação de um clipe “sem grandes produções” varia de R$ 2,000,00 à R$ 5,000,00.
Nesta trilha, a hora é de arriscar. E a ousadia é fator preponderante rumo à conquista de um mercado que já não evidencia mais os seus critérios, de uma música carente de novos poetas, e de uma geração ritimista acostumada aos bate-estacas instrumentais.
E no embalo de um desses ritmos de grande inserção da música contemporânea, o swing Black da banda Koala Joe é outra surpreendente novidade que emerge das garagens santistas.
Composta por músicos experientes da noite litorânea, a banda completou quatro anos de estrada com muitos motivos a serem comemorados. Depois de conquistar o respeito do público com um original repertório cover, o Koala decidiu apostar em trabalho voltado a composições próprias. A iniciativa deu certo e, recentemente, a banda gravou o seu primeiro vídeo-clipe.
“O nosso som é uma mistura do black, do pop e do soul. Então, a gente costuma falar que nós fazemos o black pop soul!”. Assim define Júnior, guitarrista da banda. Entre as muitas influências do grupo, o vocalista Gibi destaca que a base do trabalho foi consolidada por sons dançantes da música nacional e internacional. “Gostamos de ouvir desde Tim Maia e Jorge Bem, a Jackson Five. Eu adoro essas coisas que têm música negra, que têm batida, que têm muito groove”.
Com personalidade, o Koala segue um caminho parecido com o de outras bandas do Brasil. Sofre com dificuldade de suporte, transporte e, como de praxe, com a falta de lugares para ensaiar. No entanto, com talento e uma boa dose de improvisos, o Koala supera os desafios de sua independência artística, como conta o vocalista Duda. “Para chegarmos no estúdio com tudo organizado, passamos a ensaiar na minha casa. Lá a gente fazia os arranjos e ensaiava as vozes. Aí chegava no estúdio já com tudo praticamente montado, passava lá e já levava pra noite”.
A alternativa proposta pelo Koala é, porém, uma das maiores deficiências encontradas entre os muitos conjuntos que iniciam suas caminhadas rumo ao estrelato de forma independente. Segundo o engenheiro de som e produtor musical, Victor Fernandes, por não terem locais fixos para ensaios, muitas bandas recorrem aos estúdios com pouco ou nenhum preparo, almejando a produção de um disco. Com isso, acabam perdendo tempo e investimento, explica: “Para gravar um CD não basta ter talento ou entrosamento, apenas. A banda tem que planejar e, de preferência, conseguir alguém com experiência em produção musical”.
Victor completa, explicando que mesmo entre as bandas que planejam a produção previamente, esquecem de pensar o que será feito com o disco após o término das gravações. “Às vezes você vê investimentos de cinco, dez, quinze mil reais em um trabalho independente, com gravações de alto nível e resultados que em nada deixam a desejar para as produções de gravadoras, mas a banda ou o artista não se estrutura para divulgar o trabalho, e acaba morrendo na praia”, conclui o engenheiro.
Victor é proprietário de um estúdio de gravação em Santos, e acompanha com entusiasmo o crescimento do mercado da música independente na região. “Hoje em dia, com o surgimento de novas tecnologias de mídia e, principalmente, com o avanço da Internet, é mais fácil se lançar de forma independente. Você pode divulgar suas músicas através da web, e disponibilizar o arquivo de áudio a qualquer pessoa”, salienta.